Os riscos psicossociais passaram a fazer parte da lista da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) de riscos que devem ser avaliados pelas empresas. Com o crescimento de transtornos mentais no Brasil, o Governo tem se comprometido em incentivar que as empresas foquem na saúde preventiva mental. Somente em 2024, foram registrados mais de meio milhão de afastamentos do trabalho devido a transtornos mentais. Existem diversos fatores que contribuem para esses números, principalmente a situação do mercado de trabalho. A seguir, veja o que muda com a atualização da NR-1 e como as empresas devem se preparar para a fiscalização.
Riscos Psicossociais nas Empresas: nova obrigatoriedade de avaliação a partir de 2025
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) que estabelece as diretrizes para a segurança e saúde no trabalho. Foi criada pelo Ministério do Trabalho em 1978 e conta com 4 principais objetivos:
- Define os princípios básicos e as responsabilidades de empregadores e empregados;
- Estabelece as devidas diretrizes para a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais;
- Orienta a criação e a manutenção de programas de prevenção, treinamento e capacitação;
- Promove a integração de práticas de segurança e saúde no cotidiano das empresas.
Em agosto de 2024, a NR-1 foi atualizada e os riscos psicossociais no trabalho foram incluídos no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). A nova regra passa a valer a partir de maio de 2025 e as empresas são obrigadas a identificar e avaliar esses tipos de riscos e tomar as devidas medidas.
O que são riscos psicossociais?
O tema sobre saúde mental tem sido pauta importante no mundo corporativo. O que os profissionais vêm sofrendo hoje, é consequência de um estilo de trabalho que foi comum durante muito tempo. Sendo assim, é importante que as empresas entendam o que são considerados riscos psicossociais. Veja alguns exemplos:
- Carga excessiva de trabalho – prazos curtos, alta demanda, longas jornadas.
- Falta de controle sobre as tarefas – baixa autonomia, microgerenciamento.
- Pressão constante por resultados – metas inatingíveis, cobranças excessivas.
- Ambiente de trabalho tóxico – assédio moral, fofocas, competitividade desleal.
- Falta de reconhecimento – ausência de feedback, desvalorização do esforço.
- Instabilidade no emprego – medo de demissão, mudanças frequentes.
- Conflitos interpessoais – dificuldades com colegas ou liderança tóxica.
- Falta de suporte organizacional – ausência de comunicação clara e apoio da empresa.
- Dificuldade de conciliação trabalho-vida pessoal – sobrecarga, demandas fora do expediente.
- Falta de desenvolvimento profissional – ausência de treinamentos, estagnação na carreira.
- Violência no trabalho – agressões verbais ou físicas.
- Exposição a situações emocionalmente desgastantes – atendimento a clientes difíceis, lidar com tragédias ou emergências.
- Insegurança psicológica – medo de expressar opiniões, cultura punitiva.
Atualização da NR-1 e as novas exigências
Antes da atualização, a Norma Regulamentadora nº1 já exigia que todos os riscos no ambiente de trabalho deveriam ser fiscalizados e controlados. No entanto, havia ainda muita dúvida sobre a avaliação dos riscos psicossociais. Com a atualização, esse ponto fica mais explícito e as empresas passam a saber qual o seu papel para atuar na prevenção e cuidado com os colaboradores. E quais foram as principais mudanças com a atualização da NR-1? Não houve outras mudanças, além da adição dos riscos psicossociais. Dessa forma, além de avaliar riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, de acidentes de trabalho e doenças, as empresas devem registrar detalhadamente como estão lidando com todas essas situações, incluindo a avaliação de riscos psicossociais.
O que acontece com a empresa que não cumpre a NR-1?
- O descumprimento da NR-1 pode gerar diversas consequências. Entre elas está a multa que pode variar de R$2.396,35 a R$6.708,08.
- O Ministério do Trabalho pode embargar uma obra total ou parcial, também interditar atividades, máquinas e equipamentos até que as irregularidades sejam corrigidas.
- Pagar indenização devido a danos causados ao trabalhador.
- Em casos fatais ou permanentes, os gestores envolvidos podem ser responsabilizados criminalmente.
Como as empresas devem se preparar para a nova exigência?
O primeiro passo para atender às novas mudanças é a identificação e avaliação dos riscos psicossociais. Esse processo de identificação pode ser um pouco mais complexo, principalmente dependendo do tamanho da empresa, como grandes corporações. Nos próximos tópicos, vamos te explicar como identificar os fatores de riscos e ações que podem ser implementadas.
Identificação dos fatores de risco
Existem diversas formas de avaliar os fatores de risco que podem apontar problemas de riscos psicossociais. O ideal é utilizar um conjunto de técnicas e ferramentas para fazer uma análise mais completa. Veja os seguintes exemplos.
- Pesquisas de clima organizacional – Aplicar questionários anônimos sobre bem-estar, estresse e satisfação no trabalho.
- Entrevistas e grupos focais – Conversar com funcionários para entender desafios e preocupações.
- Análise de absenteísmo e rotatividade – Monitorar afastamentos por estresse, burnout e pedidos de demissão.
- Feedback contínuo – Criar canais seguros para que colaboradores relatem problemas.
- Avaliação de carga de trabalho – Verificar horas extras frequentes e desequilíbrio entre tarefas e tempo disponível.
- Observação direta – Líderes devem acompanhar o comportamento e a interação dos times.
- Indicadores de saúde ocupacional – Monitorar relatórios médicos e psicológicos dos exames periódicos.
- Análise de produtividade e desempenho – Quedas inesperadas podem indicar sobrecarga ou desmotivação.
- Monitoramento de conflitos – Identificar padrões de desentendimentos recorrentes entre equipes ou lideranças.
- Avaliação de segurança psicológica – Analisar se os funcionários se sentem confortáveis para expressar ideias e preocupações.
Desenvolvimento de políticas internas
Após identificar possíveis problemas, a empresa deve elaborar planos de ação eficazes para agir de forma preventiva. Uma opção bem interessante é o desenvolvimento de políticas internas. Geralmente, as empresas já possuem esse tipo de documentação, mas é importante atualizar de acordo com as novas diretrizes da NR-1. Além disso, a divulgação das políticas internas da empresa é muito importante, não somente no processo de onboarding dos colaboradores, mas também durante o dia a dia e em campanhas específicas.
Capacitação de gestores e colaboradores
Para garantir o cumprimento das diretrizes da NR-1, é essencial que gestores e colaboradores participem de capacitações, como treinamentos contínuos e palestras. Aqui na Namu, as empresas podem contar com o nosso curso para SIPAT que contém conteúdos importantes para a NR-1, confira:
- Ergonomia e atividade física
- Alimentação para uma vida saudável;
- Assédio Moral e Sexual no trabalho;
- Comportamento seguro;
- Entre outros módulos.
Além disso, a comunicação interna é fundamental para reforçar a educação sobre os temas como saúde mental, respeito e para manter um bom clima organizacional. Use meios de comunicação como o e-mail, mural de avisos e outras ferramentas de comunicação que a empresa utilize.
Impacto dos riscos psicossociais na saúde dos trabalhadores
As empresas devem considerar os perigos que os riscos psicossociais podem causar nos colaboradores. Um exemplo que infelizmente se tornou comum é o estresse e burnout corporativo. Além desses problemas já conhecidos, a apatia e falta de produtividade também são sinais de que algo está errado. Sendo assim, as empresas não devem pensar somente nas penalidades que o MTE pode aplicar, mas de forma geral. Ou seja, entender que esses cuidados preventivos e ações podem apresentar resultados positivos a curto e longo prazo, beneficiando a todos.
Benefícios de um ambiente de trabalho saudável
Investir na saúde preventiva dos colaboradores, principalmente na saúde mental não é apenas uma tendência. Essa é uma ação que se tornou estratégica de diversas formas para as organizações. Veja a seguir os principais benefícios de investir em um ambiente de trabalho saudável.
Aumento da produtividade e satisfação dos colaboradores
A felicidade dos colaboradores está diretamente relacionada ao sucesso de uma empresa. Um dos principais fatores que colaboram para essa felicidade é a relação de chefe e funcionário, por exemplo. Em uma pesquisa feita por Juliana Sawaia, cientista e pesquisadora de felicidade no trabalho, para a Fundação Dom Cabral, a validação das lideranças para os funcionários é muito importante. A pesquisa contou com 250 profissionais do setor privado, de diferentes níveis hierárquicos. “Ter o respaldo do líder direto nos âmbitos de reconhecimento e segurança psicológica é mais determinante para melhorar a visão do profissional em relação ao emprego do que outros aspectos profissionais.” Mesmo quando essa validação não acontece, as lideranças podem treinar-se para reconhecer e destacar os avanços de seus colaboradores. Isso pode ser feito através de feedbacks, como também orientações construtivas que possam ajudar no crescimento profissional do colaborador.
Redução do absenteísmo e turnover
A redução do absenteísmo e turnover também é um benefício visível quando a empresa passa a investir nos cuidados de saúde mental e física. Durante a identificação de fatores de risco, essa é uma métrica que pode indicar o problema, mas também, apontar se as mudanças positivas estão acontecendo de fato. Portanto, lembre-se de registrar esses números, pois são informações importantes para a fiscalização do MTE. Além disso, conforme o trabalho dê resultados, é um dado essencial para apresentar para a diretoria.
Melhoria da imagem corporativa
As empresas que cuidam dos seus funcionários também aumentam a chance para maior atração de talentos. Isso porque, essas ações refletem na imagem da empresa, tornando os próprios colaboradores “divulgadores” da organização. Isso também influencia na satisfação dos funcionários em trabalhar para uma empresa que realmente se preocupa com seu time. Além da NR-1 que fornece essas diretrizes, o Governo também tem trabalhado para incentivar as empresas de outras formas. É o caso do Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, uma honraria que é dada pelo Governo Federal a empresas que seguem os critérios de promoção da saúde mental. Seguir as regras estabelecidas pela NR-1 é de extrema importância. Mas, as empresas devem olhar essas ações de forma mais estratégica, para obter resultados tangíveis, como mais produtividade. Bem como também os intangíveis, que é a construção de uma marca empregadora mais consciente socialmente.
Fonte: NAMU